Saúde em debate na EXPOFUT 2026: aposta no conhecimento técnico para proteger ainda mais os jogadores

André Moreira, Liga Portugal
• Foto: Liga Portugal

A primeira edição da EXPOFUT realiza-se já entre os próximos dias 14 e 15 deste mês, na Arena Liga Portugal, no Porto. O evento vai reunir empresas, organizações e especialistas num espaço dedicado à inovação, ao conhecimento e à criação de novas oportunidades de negócio em torno do futebol. Record e o Jornal de Negócios são Media Partners do evento. O evento também servirá como polo de inovação em saúde, onde André Moreira, coordenador da Área da Saúde da Liga Portugal, destaca a introdução pioneira do cartão roxo para substituições por concussão em Portugal e a estratégia do conhecimento técnico na proteção regulamentar e na preparação de emergências médicas.

RECORD - Que novidades podemos esperar na EXPOFUT, relacionadas com a área da saúde?

PUB

ANDRÉ MOREIRA - O nosso papel é garantir que a saúde tem na EXPOFUT o mesmo espaço que as outras áreas do futebol. Tal como todas as outras, vai estar representada por empresas que vêm apresentar os seus projetos e serviços, da preparação dos atletas à recuperação de lesões, entre muitos outros. O foco principal é a inovação. A EXPOFUT vai ser o epicentro de novas ideias, e muitas delas podem, num futuro próximo, fazer parte do dia a dia dos atletas, dos clubes e de todos os profissionais de saúde que trabalham no futebol. O que nos interessa é pôr quem cria essas soluções em contacto com quem as vai usar no terreno.

R - No âmbito do projeto FOCUS da FIFA o cartão ROXO é uma novidade relativamente recente. Como foi a aplicação deste protocolo nas competições nacionais?

AM - Há que fazer uma distinção. O FOCUS é o protocolo da FIFA para avaliar em campo um jogador com suspeita de concussão, e que a Liga Portugal também será pioneira na sua implementação. O cartão roxo é a nossa resposta regulamentar ao passo seguinte: se a equipa médica suspeita de concussão, o jogador sai e a equipa tem direito a uma substituição extra, que não conta para o limite. Está no Regulamento das Competições e já foi usado na Liga Portugal Betclic e na Liga Portugal MeuSuper, e em ambas funcionou como previsto: o jogador saiu, foi avaliado e o jogo seguiu. O cartão roxo serve para isso mesmo: para sinalizar uma substituição adicional por concussão, para que toda a gente saiba o que está a acontecer.

PUB

 R - Dado que Portugal é pioneiro na aplicação desta substituição extra por concussão através de um cartão físico visível, como tem sido a reação internacional e a articulação com a FIFA?

AM - A substituição adicional por concussão não é uma invenção nossa, está prevista nas Leis do Jogo. O que fizemos de diferente foi torná-la visível: quando o cartão roxo é exibido, o estádio inteiro percebe que aquele jogador saiu por uma razão de saúde e não por opção tática. Em termos internacionais já temos algumas ligas e federações que nos contactaram para tentar perceber como implementámos e como tem sido a reação. A própria FIFA, que recebemos há poucos dias em Portugal, ficou agradavelmente surpreendida com a iniciativa. O que nos interessa é que o que fazemos cá esteja alinhado com o que a FIFA recomenda e que os nossos dados ajudem a melhorar as regras sempre em prol da saúde e segurança dos jogadores.

 R - Houve alguma resistência nas duas situações em que foi aplicado o cartão ROXO em Portugal?

PUB

AM - Não, nenhuma. Nos casos em que foi utilizado, a decisão partiu da equipa médica do clube e foi respeitada pelo banco e pela equipa adversária. Ajuda o facto de o protocolo ser claro sobre quem decide: é a equipa médica, e mais ninguém. A resistência que existe no futebol é mais antiga e a mais difícil, e vem do próprio jogador, que quer sempre continuar, quer continuar a ajudar a sua equipa. Num dos casos o jogador ainda voltou ao jogo e só saiu depois de ser reavaliado ao intervalo. Isso mostra que a avaliação não acaba nos primeiros minutos após o episódio. E que a substituição por concussão pode acontecer posteriormente.

 R - Qual é o motivo pelo qual o cartão ROXO não é apresentado pelo árbitro, mas sim pelo delegado da equipa técnica?

AM - Porque não é uma decisão sobre leis do jogo, da equipa de arbitragem. O árbitro não avalia concussões nem deve ser colocado nessa posição. A decisão é clínica e pertence à equipa médica do clube, que tem autonomia total. O delegado é a ligação oficial da equipa ao quarto árbitro: preenche o cartão roxo, entrega-o e levanta-o no momento da substituição. E este cartão não pune ninguém, ao contrário do amarelo e do vermelho. É um sinal de informação para o adversário, para quem está no estádio e para quem vê em casa.

PUB

 R - Quais são os pilares da evolução da Área Saúde da Liga Portugal e que balanço faz do impacto dos novos protocolos médicos?

AM - A ideia de partida é simples: a saúde do jogador tem de ser tratada com o mesmo profissionalismo que tudo o resto no futebol profissional. Trabalhamos em três frentes. A primeira é o conhecimento, porque queremos decidir com base em dados e não em perceções. Foi por isso que criámos um grupo de trabalho para a concussão e publicámos o primeiro estudo sobre o tema no futebol profissional português. E conhecimento também é formação: temos previstas, ao longo da época, várias formações e ações dirigidas aos diferentes profissionais de saúde que trabalham no futebol, dos médicos aos fisioterapeutas e enfermeiros. A segunda é a proteção, que é transformar esse conhecimento em regras que defendem o jogador em campo, como o cartão roxo. A terceira é a preparação: a organização da emergência médica nos estádios e a formação contínua de quem lá trabalha.

O balanço é claramente positivo. Os protocolos foram aplicados quando foi preciso, sem perturbar o jogo e com a colaboração das equipas médicas dos clubes. Mas o impacto mais importante não se mede em números: a concussão, por exemplo, deixou de ser um assunto de bastidores e passou a ser discutida abertamente por médicos, treinadores e jogadores.

PUB

 R - O que podemos esperar para o futuro a nível de saúde no futebol profissional?

AM - A concussão abriu a porta, mas o futuro é muito mais abrangente do que isso. Vejo quatro grandes temas. O primeiro é a carga: há cada vez mais jogos e menos tempo de recuperação, e gerir isso vai ser o maior desafio de saúde do futebol profissional. O segundo são os dados. Vamos registar e acompanhar as lesões de forma muito mais rigorosa, e isso vai permitir prevenir em vez de apenas tratar. O terceiro é a emergência: garantir que qualquer estádio responde da mesma forma a uma situação grave, de emergência médica, para os agentes desportivos e para os adeptos. O quarto é olhar para o jogador como um todo, o que inclui a saúde mental, o sono, a nutrição, saúde oral, entre outros. No fundo, a saúde vai deixar de ser vista como o departamento que resolve problemas e passar a ser parte da forma como se planeia uma época.

Por Pedro Malacó
Deixe o seu comentário
PUB
PUB
PUB
PUB
Ultimas de Futebol Notícias
Notícias Mais Vistas
PUB